A casa de Vovô Simões na Rua Nestor Gomes nº 178, era no andar superior. Ficava bem próximo ao Palácio do Governo. Na foto abaixo, apesar de ser mais recente, pode-se tem uma noção desta rua. A casa ficava localizada ao lado direito de quem olha a foto, depois da placa do SESI.
A porta de entrada dava direto na calçada. Ao entrar, havia uma escadaria aonde chegávamos como se fosse um corredor meio largo, onde tinha uma porta que dava para a sala de visita com uma pequena sacada. Depois, mais duas portas onde tinha acesso para os quartos e o banheiro no final do corredor. Voltando a entrada, a esquerda tinha uma grande sala de jantar, a cozinha e do outro lado desta sala, mais um quarto. Do hall de entrada, subíamos mais um lance de escada aonde chegava ao terraço muito grande, com uma vista muito boa da baia de Vitoria. Era lá em cima que ficava a lavanderia.
Papai nasceu com um “sopro no coração”, pelo menos, era assim que a gente escutava os adultos falarem. Por conta disto, ele era paparicado pelos pais e pelos irmãos. Tudo era feito para que ele não se aborrecesse.
Ele sempre foi muito carinhoso com a família. Passava diariamente na casa de Vovô para saber como estavam todos.
Tia Tetê e Tio Marcos eram mais velhos e Tia Marília tinha pouca idade mais que nós. Como éramos as únicas sobrinhas, não sabiam o que fazer para nos agradar.
Papai detestava encontrar cebola na comida, então quando íamos almoçar lá, Vovó Quinha só usava cebola ralada. Fazia uma moqueca de peixe maravilhosa, porém, como sabia que papai adorava pimenta, ela caprichava tanto neste tempero que a gente, que não apreciava muito, tinha que comer com um copo de água do lado de tanto que ardia na boca.
Nesta casa, teve dois episódios que nunca me esqueci. Vovó preparou na panela de barro uma moqueca de robalo e nos convidou para almoçar. Durante o almoço, mamãe engoliu uma espinha que ficou atravessada na garganta e foi papai que conseguiu tirar com uma tesoura. O outro fato aconteceu comigo. No almoço tinha uma salada de chuchu, que parecia muito bonita. Mamãe me serviu e eu comi tudo, mas achei que queria mais e pedi. Papai, como já sabia como eu era (sempre com o olho maior que a barriga), perguntou se realmente eu queria e eu confirmei. Então ele me disse para eu me servir o que realmente conseguiria comer. Peguei toda a travessa de salada de chuchu e coloquei no meu prato. Adivinha o que aconteceu? O de sempre: dei duas a três garfadas, olhei sem jeito para papai e disse que não queria mais. Vovó, pedia a ele para não brigar e nem me forçar a comer, mas não teve jeito. Tive que comer goela baixo, mesmo passando mal depois. Hoje, tantos anos depois, ainda não consigo comer nem melado e nem chuchu.
Normalmente os almoços do dia de Natal eram na casa da Santa Clara e a passagem de ano na casa da Nestor Gomes. Chegamos muito arrumadas, com fitas no cabelo e vestidos impecáveis. Depois da ceia, tínhamos sono, mas as tias tentavam nos distrair para ficarmos acordadas. Então sentávamos na escadaria que subia para o terraço e ficávamos vendo as pessoas passarem e conversarem. As vezes cochilávamos ali na escada mesmo e papai nos pegava no colo e levava pra cama, mas à meia noite, éramos acordadas para cumprimentar todos que estavam presentes. Depois disto, papai pedia um táxi e íamos para casa.

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