quarta-feira, 27 de abril de 2011

Sol e Mar

         Este era o nosso lema na praia. Como muito bem comentado pela Telina, adorávamos ficar bem bronzeadas e como naquela época não conhecíamos bronzeadores, nós preparávamos em casa mesmo, misturando óleo Johnson com urucum e deixava o sol fazer a parte dele. Nossa... o tom da pele ficava maravilhosa!

         A casa da Vovó, antes da reforma, tinha um salão enorme nos fundos. Nos reuníamos ali com os primos para jogar 7 ½ . Lembro que jogávamos a dinheiro (bem pouquinho) e era muito divertido. Mequinho detestava perder. Outras vezes jogávamos Batalha Naval ou Banco Imobiliário.   Alguém se lembra? As férias acabavam e ficávamos tristes porque as próximas demoravam muito.

         Para quem não conheceu, vou mostrar como eram os jogos.

Sete e Meio

Participantes: De 2 a 10.
Baralho: 1 baralho, sem os coringas, 8, 9 e 10.
Valor:  O ás vale 1   -    As figuras valem meio   -    As outras cartas valem seu número correspondente.
Objetivo: Somar 7 e meio com as cartas ou chegar o mais próximo possível, sem ultrapassar esse valor.
O jogo:
Antes do início do jogo deverá ser definido um jogador que será o banqueiro. O banqueiro poderá ser escolhido por sorte ou por voto. As apostas mínimas e máximas deverão ser definidas antes do início do jogo. Definido o banqueiro, este deverá embaralhar as cartas e oferecer o baralho para corte por qualquer jogador. Depois do corte, o banqueiro deverá distribuir uma carta, com a face para baixo, para cada jogador, no sentido anti-horário e iniciando pelo jogador à sua direita. Cada jogador verifica sua carta, mas não pode mostrá-la para os outros jogadores, comentar o valor de sua carta ou colocá-la com a face para cima. Agora cada jogador deverá fazer sua aposta. Feitas as apostas, o jogador logo à direita poderá pedir mais cartas (dizendo clara e abertamente) ou parar. O jogador pode pedir tantas cartas quantas achar necessário para somar sete e meio. Ao pedir cartas, o jogador decide se quer receber cartas fechadas ou abertas. Caso queira receber cartas abertas, deverá deixar sua carta com a face para baixo e o banqueiro apresentará tantas cartas quantas o jogador pedir, todas com a face para cima. Caso queira receber cartas fechadas, deverá abrir sua carta para que todos possam ver, e o banqueiro apresentará tantas cartas quantas o jogador pedir, todas com a face para baixo. Antes de pedir uma carta, o jogador poderá aumentar a aposta feita, contanto que dentro do limite definido antes do jogo iniciar. Ao parar de receber cartas (dizendo clara e abertamente que não quer mais cartas), passa a vez para o próximo jogador. Caso algum jogador some mais de sete e meio pontos, deverá devolver as cartas para o banqueiro e pagar a aposta para o mesmo. Após fornecer cartas para todos os jogadores que as pediram, o banqueiro abre sua carta e decide se vai querer mais cartas ou não. Caso não queira mais cartas, chamará todos os jogadores, um a um, pagando a aposta ao jogador caso este faça mais pontos do que o banqueiro, ou recebendo as apostas dos jogadores que fizerem uma pontuação menor ou igual ao banqueiro. Se o banqueiro “estourar” (fizer mais de sete e meio pontos), deverá pagar a aposta de todos os jogadores ainda na mesa. Se alguém fizer sete e meio pontos, deverá ter sua aposta paga em dobro pelo banqueiro.
O banqueiro: Caso necessário, pode-se revezar o banqueiro, fornecendo essa posição ao jogador que conseguir fazer sete e meio pontos com 2 cartas. Os jogadores poderão também oferecer fichas como compra da posição de banqueiro, tendo este a opção de ceder ou não a posição.
O ganhador: O jogador que conseguir formar sete e meio pontos ganha a partida, caso o banqueiro também não faça sete e meio pontos.


Batalha Naval  -  Regras do Jogo

Armas disponíveis:
5 Hidroaviões
4 Submarinos
3 Cruzadores
2 Encouraçados
1 Porta-aviões

Preparação do jogo:
1. Cada jogador distribui suas armas pelo tabuleiro. Isso é feito marcando-se no reticulado intitulado "Seu jogo" os quadradinhos referentes às suas armas.
2. Não é permitido que 2 armas se toquem.
3. O jogador não deve revelar ao oponente as localizações de suas armas.

Jogando (regra mais fácil):
Cada jogador, na sua vez de jogar, seguirá o seguinte procedimento:
1. Disparará 3 tiros, indicando a coordenadas do alvo através do número da linha e da letra da coluna que definem a posição. Para que o jogador tenha o controle dos tiros disparados, deverá marcar cada um deles no reticulado intitulado "Seu jogo".
2. Após cada um dos tiros, o oponente avisará se acertou e, nesse caso, qual a arma foi atingida. Se ela for afundada, esse fato também deverá ser informado.
3. A cada tiro acertado em um alvo, o oponente deverá marcar em seu tabuleiro para que possa informar quando a arma for afundada.
4. Uma arma é afundada quando todas as casas que formam essa arma forem atingidas.
5. Após os 3 tiros e as respostas do opoente, a vez para para o outro jogador.

O jogo termina quando um dos jogadores afundar todas as armas do seu oponente.




            Quem lembra destes jogos????

         Enquanto jogávamos, Vovó preparava sempre um lanche para todos. Não tínhamos hora para dormir.

         No entardecer, ficávamos atentas ao canto das cigarras, pois diziam que se ela cantasse era sinal de sol no dia seguinte.

         Na frente da casa, tinha um enorme pé de castanheira. Depois da praia, era gostoso ficar embaixo da sombra da árvore, comendo castanha e vendo os rapazes que passavam.

         Nos finais de semana quando chega o resto da família, as ajudantes de Vovó levavam os caranguejos na praia para serem degustados pelos adultos.

         Lembro muito que Vovô comprava engradados e mais engradados de coca cola daquelas garrafinhas de vidro pequena e controlava para não haver desperdício.

         Denise ganhou de um amigo chamado Paulinho um hamster. Um  dia, eu ainda estava dormindo e alguém colocou aquele rato em cima de mim. Gritei e chorei tanto, tanto, que Papai jogou ele na lixeira. A partir desta data não posso ver  nem em filme um rato. Tenho verdadeiro pavor.

         Vovó fazia maravilhas com Jenipapo. Adorava o licor e também aquele doce que ela fazia com as fatias da fruta, cozidas no açúcar e depois passadas no açúcar cristal. Só de falar me dá água na boca.

         Final de tarde, entre a casa e a Praia da Sereia, os pescadores chegavam com seus barcos cheios de peixe. Gostávamos de ir até a areia vê-los chegar. O pessoal de casa sempre comprava os peixes fresquinhos para fazer para o jantar. Delicioso!!!

         A seguir, duas fotos: A primeira da Praia da Sereia (naquela construção no meio das árvores, serviam um pastelzinho de camarão que era muito bom) e a segunda, a lateral da praia, onde no lado esquerdo da foto pode-se observar a Praia da Sereia de outro ângulo.




terça-feira, 26 de abril de 2011

Praia da Costa

Somente quem vivenciou, sabe com certeza o que era passar férias ou finais de semana na Praia da Costa na casa de Vovô Gildo.

Levantar cedo, tomar café, atravessar a rua e já estávamos na praia. Não dava para perder tempo. Aproveitávamos cada minuto do dia.

Tia Arlete morava numa casa mais para o lado do mar agitado e Vovó Telina mais próximo à Praia da Sereia.

Pela foto de 1976, dá para se ter uma idéia de como era a Praia naquela época. Entre a Casa de Vovô e da Tia Arlete, tinha um prédio baixo chamado de “Sol e Mar” onde tínhamos diversos amigos que passavam férias ali. Acho que este prédio tem até hoje.




Aprendi a andar de bicicleta nesta praia. Todos os dias, Papai levava a bicicleta na marginal (era uma rua de terra, que ficava entre o mar e o asfalto). Um dia, Papai me levou para treinar. Como ele achou que eu estava bem firme, soltou a bicicleta e eu fui sozinha, porém, quando olhei para trás e percebi que ele não estava mais segurando, perdi o controle da bicicleta e cai em cima de um pé de cactos. Fiquei com os espinhos em várias partes do corpo.

Cristina, Mequinho e Bebeto, vinham até a frente da casa de Vovó para ficarmos todos juntos. Era muito divertido. Passávamos mais tempo dentro da água, brincando de plantar bananeira. Nós não tínhamos bicicleta, mas os primos tinham várias. Então muitas vezes eu saía da praia antes dos outros, tomava banho e pegava a bicicleta de Cristina para dar umas voltas até o Clube Sírio Libanês e ver o movimento da praia.

No meio da tarde, voltávamos novamente à praia e fazíamos uma caminhada pela areia, próxima a água, para catar Tatuís. A onda vinha, e quando ela se recolhia, surgia um furinho onde os Tatuís se escondiam. Afundávamos nossas mãos na areia e o bichinho vinha junto. Quando voltávamos para casa, cozinha e degustava os Tatuís.

Os almoços na casa de Vovó eram como os da Santa Clara. Sempre reunindo a família e muitos e muitos pratos diferentes, para agradar a todos.

Entre as receitas da Vovó tinham algumas que faço até hoje e adoro.

Souflé de Camarão (Vovó Telina)

3 xícaras de leite
3 colheres (sopa bem cheia) de trigo
Sal
Leve ao fogo para um mingau grosso. Junte a este, ainda quente:
5 gemas
3 colheres (sopa) de queijo ralado
1 colher (sopa) de manteiga
Molho Inglês
À parte, fazer uma moqueca com 1 kg de camarão, deixando um pouquinho de caldo. Ponha o leite de um coco ou 1 vidro de leite de coco industrializado.
Bater as claras em neve  misturar ao creme, onde já foi adicionado também a moqueca do camarão. Polvilhar farinha de rosca e queijo ralado e levar ao forno. Se quiser, enfeitar com camarões.


Capelete (Vovó Telina)

Massa: 5 ovos  -  Trigo  -  1 colher (sopa) de óleo
Misturar os ingredientes, cortar os quadradinhos  e rechear, procurando não encher muito para não abrir na hora de cozinhar.
Caldo: Coloque uma galinha no fogo com todos os temperos para cozinhar. Depois de cozida, separar o peito e 2 coxas. Reserve o caldo.
Recheio: Passa-se na máquina de três dentes. Retirar a pele. Ponha menos da metade de uma noz moscada, umas 2 colheres de queijo ralado e farinha de pão até que fique uma farofa não muito seca. Ponha nesta farofa um pouquinho de manteiga.
Ferver o caldo onde foi cozida a galinha e vai adicionando os capeletes. Se precisar de fazer mais caldo, ferver as peles, os ossos e o resto da galinha que sobrou. Coa-se tudo e a proporção que for precisando da cozinhar o capelete, utilizar este caldo.


Graib Doce Fino (Vovó Telina)

1 pacote de manteiga
1 xícara de açúcar
3 xícaras de trigo
A manteiga leva-se  ao fogo em uma panela pequena. Deixar ferver até secar a água. Para se certificar melhor, jogar na labareda do gás uma gota, se não estalar e porque está no ponto. Deixa-se esfriar num lugar onde ninguém mexa para o sal ou alguma borra ficar no fundo.
Coloca-se a panela na geladeira. No dia seguinte, tira a manteiga com cuidado, raspando por cima par não misturar com o que ficou pousado no fundo. Se por acaso em cima da manteiga depois de gelado aparecer como se fosse uma espuminha branca, tirar de leve com uma colher. Colocar no deposito menor da batedeira e bater até clarear. Colocar o açúcar e o trigo e continuar a bater bem a massa. Apanhar um pouquinho de massa, comprimir com as mãos e faz-se os graibs (que ficam num formato meio compridinho). Ponha as amêndoas a ferver um pouquinho e tire a pele. Abra em duas partes e passa-se clara de ovo para que depois de assado não solte. A clara é só na amêndoa.
Se notar que a massa está esfarinhando, colocar um pouquinho de manteiga. Tem que ficar no ponto de enrolar. Leva-se ao forno sem deixar corar.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Um Mergulho no Tempo

         No Ginásio, minha professora de Inglês chamava-se Sonia Costa. Gostava do jeito dela dar aula e nunca tive dificuldades com o Inglês, assim como tinha facilidade com o Francês.

         Um dia, estava com dor de cabeça e antes de ir para o colégio tomei um comprimido de Cibalena. Fiquei branca, tonteei e desmaiei. Depois deste dia, nunca mais tomei este remédio, que hoje nem existe mais com este nome. Chegou-se a conclusão que eu era alérgica a algum componente.

         Denise era bem magrinha e tinha dois apelidos que odiava: Olivia Palito  e Perfil de Gilette. Dê, quem podia imaginar naquela época que você um dia  precisaria cuidar do que come, né?

         Quando eu era adolescente roía muito as unhas. Roia até chegar no sabugo. Acho que era uma maneira de “esconder” a timidez. Isto incomodava muito Papai que sempre me chamava a atenção quando me via com a mão na boca. Tentou de tudo para eu deixar este hábito, inclusive passando pimenta nos dedos. Demorei muitos anos para eliminar esta mania.

         Sempre gostamos e participamos das comemorações do colégio. Uma das datas que adorávamos era o desfile de Sete de Setembro. Os ensaios começavam meses antes. Primeiro, no pátio da escola e mais tarde nas ruas próximas ao colégio. A formação tinha que estar correta (a distância entre um e outro era medida estendendo os braços tanto para o companheiro da frente como de ambos os lados) e não podia errar o passo. Quando acontecia, tinha um jeitinho de acertar sem atrapalhar os demais. Eram formados pelotões e sempre “puxados” por um aluno que ia à frente. A banda marcial vinha no final de tudo. No dia do desfile, o uniforme tinha que estar impecável e era necessário chegar mais cedo ao colégio para a concentração. Lá em casa, Mamãe também levantava cedo e com a Ajudante, preparava um super café da manhã bem reforçado, pois além da concentração, o desfile normalmente demorava bastante. Então o café era composto de ovos, bife e pão. Nossa... era muito delicioso! A gente se sentia muito importante de participar. Foi num destes desfiles que me interessei por um rapaz chamado Beta. Ele trocava corneta. O pessoal da banda tocava os instrumentos  enquanto marchávamos no mesmo ritmo. Numa determinada altura entravam as cornetas. Ai era uma desconcentração geral.   Como ele morava na Vila Rubim, me levava até a esquina da minha rua. Lembro que ficávamos na frente da casa do Sr. Zanotti, brincando com folhas de fico. Uma vez, Papai veio mais cedo da Vale e passou e Jeep onde conversávamos. Denise estava perto e eu inventei que era Denise que estava interessada nele. Enfim, Denise que pagou o pato.

         À noite, quando Papai e Mamãe saiam, Beta, Polly, Carlos Danilo e Carlos Magno subiam na caixa d’água para fazer serenata. Nós não podíamos sair de casa, mas apagávamos as luzes e ficávamos escondidas atrás da porta escutando as musicas.

domingo, 24 de abril de 2011

Em Algum Lugar do Passado ...

Quando Denise passou para o primeiro ano do Ginásio, avisou a Papai que queria estudar no Colégio do Carmo, porque queria ser freira. Não entendemos nada, porque esta realmente não parecia ser a vocação dela, mas, Papai atendeu o desejo dela e matriculou-a. A seguir, duas fotos do Colégio do Carmo.





         As irmãs deste Colégio usavam aquela túnica escura e aquele chapéu bem grande branco, engomado. Detestava a Irmã Rosa, professora de trabalhos manuais. Estudou neste colégio apenas um ano, não gostou e pediu para voltar o Colégio Americano onde cursou até o final do Clássico.

         Mais tarde, ficamos sabendo o que tinha acontecido. Ela havia feito uma promessa que seria freira se conseguisse alcançar uma graça. Conversou com Vovô Simões, e ele sugeriu que ela estudasse no Colégio de Freiras para saber se era isto mesmo que ela queria. Em um ano, teve certeza que não tinha vocação para esta vida.

         A melhor estudante das três sempre foi Telina. Aplicada, disciplinada, digamos assim... CDF mesmo. Nunca ficou em recuperação (que eu me lembre). Denise foi uma aluna aplicada, porém um pouco menos que Telina. Pegou ainda a fase de estudar Latim que não era nada fácil. Apenas uma vez ficou para segunda época. Por último, fiquei eu, que nunca fui aplicada, pois estudava sempre o mínimo. Deixava para estudar de última hora, não dava conta e não me lembro de ter passado de ano nem uma vez direto, sempre de segunda época. Era nesta fase que eu ficava apavorada com medo de não conseguir a nota para passar de ano. No dia marcado para divulgação do resultado, combinava com as outras amigas que também tinham ficado e íamos ao colégio. Eram divulgados por série, nome do aluno e na frente a palavra mágica: APROVADO  ou  REPROVADO. Até saber o resultado, o medo era tanto que eu pensava comigo mesma que nunca mais ficaria para segunda época, mas no ano seguinte, era a mesma coisa.

         Na rua Santa Cecília, que ficava no meio do caminho para o colégio, morava uma amiga nossa que se chamava Thelma. Ela não estudava com a gente, mas tinha a mesma idade. Quando voltava do colégio, sempre batíamos um papo rápido para não se atrasar para chegar em casa. Num destes bate papos, surgiu a idéia de eu matar aula para ir ao cinema. Nesta época ainda estudava à tarde. Então, pensei e calculei tudo com antecedência para não levantar suspeitas. Um dia levei dentro da pasta um vestido, no outro levei uma sandália, assim, no dia combinado já estaria tudo na casa dela. As cadernetas do colégio eram escritas pela Diretoria com caneta tinteiro. Descobri que água sanitária apagava a tinta sem deixar vestígios (ou quase). Então molhava a ponta do palito e apagava a data do nascimento, colocando assim a data que me faria ter a idade de 16 anos para entrar no cinema. Chegou o grande dia! Parecia que estava estampado na minha cara que eu ia matar aula, que ia fazer algo que não estava certo, mas não desisti. Minhas irmãs sabiam, mas não falaram nada. Elas foram para o colégio e eu fiquei na Thelma. Me arrumei, lembro até hoje como era o vestido: um tubinho verde claro, com uns detalhes em alto relevo branco, como sandália branca. A Thelma me maquiou um pouco mais para eu parecer ter mais idade. O filme escolhido foi “Dr. Jivago” e o mesmo estava passando no cine São Luiz. O maior obstáculo era que Tio Odete morava no edifício quase em frente ao cinema. Imagine se ela me encontrasse? Aliás, o medo de ser descoberta estava por toda parte, pois naquela época em Vitoria, todo mundo se conhecia. Mas, D. Fani, a Diretora do colégio que era prima da mamãe, ligou lá em casa para saber o que tinha acontecido comigo por eu não ter ido ao colégio.

Adivinhem o que aconteceu? Pela segunda vez, apanhei de cinta de Papai. Eu como sempre muito escandalosa, gritava, dizia que ele ia me matar, mas ele batia e dizia que eu nunca mais ia fazer isto, e foi verdade, nunca mais fiz. Esta foi a segunda surra, porque a primeira, alguns anos antes, eu tirei “zero” em comportamento e tive que usar o mesmo artifício da água sanitária, alterando a nota do comportamento por uma um pouco melhor. Mas... D. Fani também ligou lá em casa e disse minha nota pelo telefone.  Quando Papai pediu as cadernetas e viu a nota diferente, sabia o que eu tinha feito. Minhas irmãs choravam e pediam para Papai não me bater, mas não tinha jeito. Ele dizia: “Se vocês defenderem sua irmã, vão apanhar também”. Mas ele sofria muito por ter que fazer isto, pois depois que ele batia, ele chorava escondido. Mas hoje entendo que ele tinha razão de agir assim. Quando íamos fazer algo errado, pensávamos sempre como seria o resultado final, e desistíamos.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Saudades...

Hoje amanheci com muitas saudades. E me perguntei: Mas saudades do que? E a resposta veio logo em seguida. Saudades da presença de um ausente querido... saudades da imagem que está dentro do meu pensamento, saudades do que se foi mas não partiu, saudades do que não podemos ver mas podemos sentir no fundo da nossa alma.

Então, justifiquei tudo isto com esta semana. É a semana que chamamos “Semana Santa” e com certeza nos faz pensar e refletir sobre muitas coisas.

Fechei os olhos, e por um momento, vislumbrei a casa das minhas duas avós. Quarta-Feira, e já começavam a seleção dos ingredientes para a confecção do prato tradicional para esta ocasião, a “Torta Capixaba”. Os palmitos frescos sendo separados das grossas cascas, os siris e caranguejos sendo catados um a um, os camarões e sururus sendo limpos. Em seguida, o preparo separado de cada um destes ingredientes, para mais tarde serem misturados e arrumados nas panelas de barro, não antes de serem envolvidos em azeite de oliva. Por cima, os ovos batidos e decorados com rodelas de cebola e azeitonas. Quase na hora de servir, é levado ao forno. É servido bem quente, apenas acompanhado de arroz branco e vinho tinto.




Na quinta-feira, íamos comer torta na casa de Vovó Quinha e na sexta-feira na casa de Vovó Telina. Apesar de ser um período onde não era permitido risos e brincadeiras, quando pequenas tudo era relevado.

Ainda sinto o movimento na cozinha para a preparação de tudo. Enquanto uns arrumavam a mesa, outros ficavam lidando no fogão e nas sobremesas, mas tudo em silêncio. Mas principalmente, lembro do cheio delicioso ao ser preparado o prato.

Para nós crianças, era a oportunidade de reencontrar os primos e brincar. Quando não estávamos correndo no quintal, aproveitávamos para balançar à sombra do caramanchão recoberto de buganvílias na cor rosa.

Poxa, como era bom estarmos reunidos com os avós, tios, tias e primos.

Infelizmente, muitos já se foram... Mesmo sabendo que esta é a ordem natural das coisas, nem tem como não sentir saudades do que era bom, do que nos fazia felizes.

Então minha saudade ficou um pouco maior, quando ao ligar o rádio hoje cedo, escutei a música “Carinhoso”. Uma musica que gosto muito e me trazem só boas recordações.

Desejo a todos nós uma Feliz Páscoa, dentro do espírito de como deve ser. Renascimento, perdão, amor e muita paz.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Um tempo de ouro

         Durante a fase escolar, procuramos participar de tudo que era possível, porém dependia da aprovação de Papai. Jamais participar de algo que não estivéssemos em casa quando ele chegasse do trabalho.

         Eu e Denise participamos de movimentos estudantis tais como UNE – União Nacional dos Estudantes, DCE – Diretórios Centrais dos Estudantes além do Grêmio do Colégio.

         Também fazíamos parte do time de Vôlei do Colégio Americano. Treinávamos no contra turno e quando a quadra estava ocupada, os treinos eram feitos no Ginásio Wilson Freitas.  Uma ocasião, Papai permitiu que fossemos disputar um campeonato em Governador Valadares, não sem antes saber exatamente quem estaria responsável pela turma. Tudo foi divertido e novo para nós, afinal, nunca tínhamos viajado sem nossos pais por perto: a viagem, o alojamento, a alimentação adequada para atletas. Desde que comecei a jogar Vôlei, meu apelido era “canhotinha de ouro”. Falando assim, parece até que eu resolvia qualquer partida, né?

         Nosso uniforme de educação física era ridículo (short tipo bombacha azul turquesa e camisa branca). Felizmente quando íamos jogar representando o colégio, o uniforme era outro.

         Já o uniforme do colégio era saia de brim cinza chumbo e camisa beje, meia branca e sapato vulcabrás preto. Nos dias de chuva galocha preta.

            Denise, sempre um ano a minha frente, tinha como melhor amiga a Ingrid. Nancy, que muitos anos depois vim a encontrar em Curitiba, também estudava na mesma sala que ela.

         Para sustentar 3 filhas em colégio particular não deve ter sido nada fácil para Papai. Numa determinada época, ele conseguiu com Dr. Eurico, bolsa de estudos para todas nós. Na verdade ele pagava durante todo ano e no final o colégio reembolsava. Quando ele recebia este dinheiro, ele dava para nós comprarmos roupas ou algo que estivéssemos precisando. Hoje, é fácil imaginar como ele devia se sacrificar para nos dar tudo que precisávamos. Naquela época, não comprávamos roupas prontas porque o gasto seria muito grande. Como  Mamãe costurava para nós,  escolhíamos os modelos e sempre estávamos com roupas bonitas e variadas. Ele nos elogiava assim como a Mamãe por andarmos sempre bem vestidas. Com o dinheiro, íamos nas Casas Helal e comprávamos sapato, sandália, bolsa, maquiagem.

domingo, 17 de abril de 2011

Coração de Estudante


          Estudar nunca foi meu forte, mas gostava muito de ir para o colégio. Encontrar os amigos, conversar, participar das aulas de educação física, enfim, tudo no colégio me agradava.... a não ser estudar. Mas, apesar de nunca ter sido uma aluna exemplar, nunca reprovei. É bem verdade que também nunca passei de ano sem ficar em recuperação. Já era praxe. Distraia-me nas explicações da aula, deixava para estudar em cima dos dias de prova e sempre dei trabalho aos meus pais. Por conta disto, muitos e muitos castigos.

         Minhas irmãs, iam muito bem no colégio. Telina sempre uma das primeiras da classe e Denise também não ficava atrás. As matérias que ela mais gostava eram Português e História. Eu detestava Geografia. Papai sabendo da minha aversão pela matéria tentava muitas vezes me ajudar. Pegava uma laranja e enfiava uma agulha de tricô para demonstrar assim o Globo Terrestre e o eixo imaginário. Outras vezes, me mandava decorar os estados e as capitais. Eu chorava dizendo que estava cansada e ele dizia que só deixaria eu ir dormir depois de responder as perguntas. Era um suplicio!

         Quando chegava o final do mês, a gente já ia se preparando psicologicamente porque depois do jantar, papai sentava na sala, chamava as três e dizia: “Tragam as cadernetas”. Eu que quase sempre estava mal de nota, tinha um frio na barriga. Deixava que Denise e Telina entregassem as delas e deixava a minha por último. Algumas notas vermelhas e as que estavam azul estavam no limite para o vermelho. Cada nota baixa era uma palmada na mão.  Quando já estava no ginásio e passamos a estudar pela manhã, depois que almoçava e descansava, ao invés de pegar o caderno para estudar, preferia ler fotonovelas. Escondia a revista debaixo do travesseiro e o caderno em cima. Quando não tinha ninguém por perto ficava lendo a revista e estudar mesmo que era bom... nada.

         Em fase escolar tem coisas que não dá para esquecer mesmo. Num determinado ano do ginásio, um professor de Português nos mandou decorar algumas estrofes de um poema de Luiz Vaz de Camões, chamado “Os Lusíadas”. Nunca mais esqueci a primeira estrofe. Como era difícil decorar esta chatice.  As armas e os barões assinalados / Que da ocidental praia Lusitana / Por mares nunca de antes navegados / Passaram ainda além da Taprobana / Em perigos e guerras esforçados / Mais do que prometia a força humana / E entre gente remota edificaram / Novo Reino, que tanto sublimaram”. Para que decorar isto, né? Achava uma grande perda de tempo.

            Apesar de ser meio devagar para estudar, me dava muito bem com meus professores. Quando chamada na frente de todos para responder alguma pergunta que eu não soubesse a resposta, disfarçava a meu nervosismo dizendo: “Pera ai professora, já estou lembrando, só mais um minutinho. Poxa estudei tudo isto ontem, sabia tudo de cor. Não sei por que esqueci agora. Mas já vou lembrar.” Algumas vezes a professora passava a pergunta para outro aluno e esquecia de mim. Quando ela perguntava para outro algo que eu sabia, levantava logo a mão e dizia: “Ah professora esta eu lembrei rapido e posso responder”. Nem sempre me dava bem, mas as vezes tinha sorte.

         Gostava mais de conversar do que prestar atenção na aula. Talvez por isto, sempre era escolhida como “Oficial de Classe”. No ginásio, cada materia tinha um professor. No intervalo entre uma aula e outra, enquanto o professor não chegasse, os Oficiais de Classe ficavam na frente, em pé  voltados para a classe, administrando o barulho e a bagunça. Estes oficiais eram escolhidos pela propria turma. Normalmente uma menina e um menino. Existia também o oficial de disciplina, que coordenava todos os andares e salas do ginásio. O nome dele é Rubimaya. O Porteiro, que controlava a entrada dos atrasados se chamava Pavão. Dr. Alberto Stange Junior era o Diretor e D. Herta era a professora de Canto.
        
         Era comum ensaiarmos o Hino do Colégio. Normalmente este ensaio era dentro do salão nobre. Também não esqueci a primeira estrofe do hino: “Tem Vitória um luzeiro brilhante / Que de Deus pela fé se acendeu  / Esta escola a luzir deslumbrante / Neste solo, onde forte nasceu /  Anteviu Loren Reno, gigante /  Na visão que o futuro lhe deu / Esta forja, bendita, possante / Num alcândor de gloria apogeu  /  Refrão: Salve, Salve o Colégio Americano! / Pela glória do Brasil!"



sexta-feira, 15 de abril de 2011

O inicio de uma nova era – Vida Estudantil


Escrever sobre este período provoca em mim muitas lembranças, principalmente por ter sido uma época de descobertas e aprendizado, de paixonites e de grandes amizades. O quadro negro onde eram passadas as lições, o pó do giz que dava gastura, o apagador, a professora, enfim, ao lembrar todo este contexto, sou tomada por um turbilhão de emoções, um misto de alegria, por ter vivenciado esta fase tão importante e ao mesmo tempo tristeza por não ter encontrado mais ninguém daquela época. A saudade bate forte, e em alguns momentos, não consigo teclar com a mesma velocidade do meu pensamento, tantas são as lembranças daquele tempo.

No final da Ladeira Santa Clara, existia um Grupo Escolar onde poderíamos estudar, porém Papai optou por matricular as 3 filhas  no Colégio Americano, afinal ele e Mamãe haviam estudado lá e já conheciam a sistemática do ensino. O Colégio Americano Batista de Vitória, era freqüentado por meninas e meninos, e por ser Batista, não enfocavam nenhuma religião. Além de já conhecerem o colégio também pesou na decisão o fato da Diretora do Primário ser prima da Mamãe. O nome dela  era D. Fany.

O Primário compreendia da 1ª à 4ª série, o ginásio compreendia da 5ª. à 8ª. Séries e depois havia duas opções: curso normal (para formar professores) ou o clássico ambos com duração de 3 anos. Com isto, o aluno cumpria o ensino fundamental e médio. Terminada a 4ª série, o aluno precisava prestar uma prova com todo o conteúdo dado até aquele momento. Esta prova se chamava  “Programa de Admissão”.  O aluno que fosse aprovado, ingressava no ginásio.  Quando cheguei nesta fase, tinha começado  vigorar no Colégio que quem conseguisse uma determinada média na 4ª. Série, poderia passar direto para a 5ª. Dei sorte e “pulei” o exame de admissão.

Estudávamos no turno da tarde e íamos e voltávamos juntas. A primeira atividade ao chegar no colégio, era ficar em fila no pátio todos voltados para uma pequena escada onde ficava a Diretora. Era então colocado o Hino Nacional, e todos cantavam. Não era permitido nenhum barulho durante a execução do hino.

Minha primeira lembrança nesta escola, foi no segundo ano. Minha professora se chamava Luiza. Eu sentava nas fileiras intermediárias, nem na frente e nem no fundo. Adora o inicio do ano, quando os cadernos, livros, canetas e lápis de cor eram novos. Nunca fui uma aluna exemplar e sempre fui tímida. As carteiras eram de madeira, com lugar para colocar a pasta embaixo, e o material que estava sendo usado podia ficar em cima da mesa. Lembro que num determinado dia de aula, a Professora Luiza me pediu para eu ler um trecho do livro. Eu muito nervosa, comecei a rir. Ela tentou me acalmar, mandou trazer água mas quando começa a ler, ria novamente. Ela percebia que não tinha condições e escolhia outra aluna. Com isto eu me livrava de passar vergonha (pelo menos era assim eu pensava). No intervalo, íamos para o pátio, mas apesar de ter cantina, sempre levávamos o lanche de casa na merendeira.

Estudei neste colégio do 2º. ano até terminar o Curso Técnico de Secretariado (que iniciou exatamente no ano que terminei o ginásio), ou seja, por 10 anos.

Pela foto aérea abaixo e algumas marcações que fiz, dá para lembrar bem como era o nosso dia a dia.

Morávamos no final da Rua Santo Antonio. Ao lado tinha a primeira caixa d´água  e depois, mais adiante tinha a segunda. Voltando da nossa Rua, saiamos na Ladeira Santa Clara, onde bem na esquina das duas ruas, morava o Sr. Zanotti. Passávamos a entrada da casa de Vovô Gildo um pouco adiante virávamos a esquerda na Rua Afonso Braz, depois a primeira a direita onde ficava a Rua Santa Cecília. No final dela, de um lado ficava a Igreja que freqüentávamos no final de semana e do outro lado tinha uma enorme escadaria onde, à direita ficava a casa do Sr. Alexandre e Maria Buaiz, pais de Tio Américo que morava ao lado, e do lado esquerdo pegávamos a lateral da rua do Colégio Americano. Onde identifiquei “Casa da Thelma”, é que mais adiante contarei outras historias.





quinta-feira, 14 de abril de 2011

Um passeio por Colatina

Numa ocasião, fomos de trem com Vovó Telina passar um dias de férias em Colatina na casa da Tia Dalva. Era viagem era uma delicia e quando chegávamosao nosso destino, tinha muitas coisas para fazer. Visitamos a Família de Tio Candido, que tinha um filho chamado Candinho que estudava para ser padre. A gente achava que não ia dar certo porque ele era muito bonito. Também íamos à casa do Tio Vitorio, irmão de Vovô Gildo. Nunca me esqueci que o trem passava quase em frente a casa da Tia Dalva, assim como não esqueci a ponte que passava em cima do Rio Doce.




Denise gostava de escutar novela no Rádio. Lembro que ela gostava de ouvir “Jerônimo” e também “O Anjo”.

         Num sábado, fomos passear no morro onde tinha as torres de TV e resolvi andar de carrinho de rolimã. Não consegui vencer a velocidade da descida e cai. Machuquei o cotovelo e tenho as cicatrizes até hoje. O complicado foi chegar em casa toda esfolada e explicar o que tinha acontecido.

         Ficamos muito tristes no dia que soubemos que o pai da nossa amiga Luiza Helena sofreu um acidente fatal. Ele dirigia um caminhão de combustível o qual bateu e explodiu. Ele morreu carbonizado. Não pudemos ver, pois o caixão ficou lacrado. Naquele tempo era muito complicado lidar com perdas, mesmo que estas perdas fossem das pessoas próximas a nós. A gente ficava muito impressionada, como ficamos com a morte do Seu Didico marido de D. Dulce. Eles moravam quase em frente a casa de Vovó Telina. Da janela do quarto de Mamãe, a gente avistava o corpo sendo velado na mesa da sala de visita. Passamos muitos dias tendo dificuldade para dormir.

         Em nossa casa, era hábito todos os anos tomar remédios caseiros para limpar o organismo ou eliminar os vermes. Nestes dias, era terrível, pois dava enjôo de tão ruim que eram os remédios. Imagine tomar Óleo de Fígado de Bacalhau e Óleo de Rícino. Em outra ocasião era dado leite com saião. Eu tinha tanto pavor deste preparado, que até hoje detesto tomar leite.

         Papai comprou para nós uma coleção de livros maravilhosa, intitulada “O Mundo da Criança”. Os livros, em vários volumes, tinham a capa vermelha com escrita dourada e era muito ilustrado.

         Nós gostávamos muito de colecionar coisas. Uma época foi coleção de marcas de cigarro, outra vez eram selos, outra vez eram decalques auto adesivos, onde a gente guardava dentro de uma pasta. As duplicadas, trocávamos com as amigas por alguma que não tinha. Lembro principalmente de um da Bardahl.

         Papai as vezes tinha umas idéias meio malucas. Uma vez trouxe para casa um Pingüim empalhado.

         Ele tinha muitos amigos que gostavam dele. Muitas vezes algum amigo trazia do interior enormes latas cheias de banha bem branca e cremosa onde eram armazenadas carnes de porco defumadas. Para preparar um prato, bastava retirar um pedaço da banho e fritar na panela ou frigideira. Ficava deliciosa.

         É muito bom saber que pessoas ligadas a nós foram ou são queridas. Tia Heny, em seu Blog, colocou uma observação sobre papai que me deixou feliz:
         
“Milton Simões, casado com Dulce, foi um dos cunhados mais queridos, todos gostavam dele. Era muito alegre e se dava bem demais comigo. Teve um problema de coração e também nos deixou.”

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Alguns fatos Bizarros


Vovó Telina tinha um casaco de pele,  preto, que ia até o joelho. Ele era lindo! Mas Silvinha, nossa prima, filha de Tia Odete, morria de medo de ver este casaco dentro do armário. Achava que era um bicho.

         Em nossa família havia uma tradição na passagem do Ano. Todos colocavam um galinho de Acássia debaixo do travesseiro. Diziam que dava sorte. Foi por isto que escolhi as Acassias como fundo da minha página.

         Papai possui uma coleção de miniatura de garrafas de bebida. Muitas vezes, bebemos o liquido e colocamos mate para disfarçar. Acho que ele nunca descobriu que fomos nós, caso contrário, o castigo ia ser grande.

            Todo Natal, a Vale do Rio Doce, presenteava os filhos dos funcionários. Eram presentes muito bons. Teve um ano que ganhamos duas bonecas gêmeas.

         No final de semana, sempre passava um senhor que vendia coquinho. Eles eram pequenos e com uma casca dura que revestia uma massinha branca. Tínhamos que quebrar a casca com uma pedra. A medida era feita com uma lata de óleo vazia e mamãe comprava duas medidas para nós. Naquela ocasião, o leite era entregue todas as manhã, e vinha em garrafas de vidro.

            Telina teve alguns probleminhas quando pequena. Primeiro, ela começou com muita urticária e os médicos de Vitória não conseguiram descobrir o que era. Então meus pais a levaram para Belo Horizonte para avaliação de um especialista. Depois de uma série de exames, ficou constatado que ela tinha alergia a casca de feijão.  Alguns anos depois ela ficou seriamente doente e papai e mamãe tiveram que viajar uma noite às pressas para o Rio de Janeiro. Ficaram hospedados na casa do Tio Marcos. Telina estava com Tifo. Com tudo isto, ela detestava tomar remédio, porque enjoava. Alguém ensinou uma simpatia para isto não acontecer: segurar uma chave com força na mão.

         Papai, por ter sido sempre uma pessoa muito correta, tinha opiniões próprias que adotava em nossa casa e assim aprendemos desde pequena alguns lemas. Quando ele se referia a uma pessoa que ele achava “nota 10” ele dizia: “fulano é pedra 90”. Não gostava de discutir religião, futebol e política com ninguém. Tinha seus conceitos e respeitava a opinião dos outros. Outra teoria era “Carteira Profissional não se suja” (traduzindo, ele queria dizer que não se deve trocar de emprego sem motivo. Sempre nos ensinou a trabalhar sério, dar valor ao seu emprego, ter responsabilidade e assim as oportunidades de mostrar sua capacidade iria aparecer). Sobre isto, só tenho a agradecer a ele, pois foram estes ensinamentos que me fizeram a profissional que sou hoje. Outra coisa que ele sempre dizia, é que se pudesse escolher, gostaria de morrer num acidente de avião para não dar trabalho a ninguém. Ele viaja muito a serviço da Vale e tendo problema cardíaco, achava que isto poderia acontecer. De alguma maneira, Deus realizou seu desejo, pois ele descansou sem dar trabalho para ninguém. Tinha tontura quando debruçava numa varanda ou janela que fosse localizada nas alturas.




terça-feira, 12 de abril de 2011


Ontem, quando falei de nossas férias de verão em Nova Almeida, não postei fotos, mas faço agora, pois são lembranças que valem a pena guardar.  Telina, a menorzinha de todas, parecia um soldadinho de chumbo, Denise  sempre elegante e eu.... sempre gordinha.

 Telina passeando na praia.


Algumas vezes íamos passar o dia na Praia de Jacareipe. Tinha lá um restaurante árabe que além de outras iguarias servia um prato chamado “Arroz Arabe” feito com macarrão cabelo de anjo frito. Um outro lugar que gostávamos de ir, só não lembro se era Carapebus ou Jacareipe, onde tinha um pedaço de rio que desembocava no mar.  A água era cor de ferrugem porém bem limpa e muito quentinha (enquanto estamos imersas dentro dela, bastava tirar o pé fora da água que o vento batia gelado.



A principio, a função de Papai na Vale do Rio Doce era de Desenhista. As vezes levava trabalho para cada e ficávamos admirando ele trabalhar em sua prancheta e com a régua “T” . Ele tinha uma caixa de lápis de cor que adorávamos. Eram lápis importados, e tinham 24 cores. Os matizes de cada cor, pareciam um sonho. Sempre teve vontade e habilidade para fazer engenharia, mas com 3 filhas para criar, ficou muito difícil ter esta despesa. Chegou a fazer um pedido ao Pesidente da Republica, Getulio Vargas, mas a concessão de uma bolsa de estudos, mas infelizmente não deu certo. Mais tarde ele passou a ser o responsável pelo Setor de Compras da mesma empresa.

            Papai perdeu dois amigos de maneira trágica. Um deles, foi Fábio Ruschi que morreu num desastre de avião próximo ao aeroporto de Vitoria, e o outro foi o seu Oscar, que estava no Rio de Janeiro a trabalho e foi encontrado morto 3 dias depois no quarto do hotel. Teve um enfarte. Deixou sua esposa D. Neide e os filhos Rômulo, Rémulo e Romaeda.

         Meus pais gostavam de receber os amigos em casa para jogar uma canastra. Papai gostava muito de ouvir a cantora Elisete Cardoso, ficava horas tocando sua gaita de boca (ele tocava com perfeição a musica “Two Yong”. Ele torcia pro Flamengo e Mamãe torcia para o Fluminense. Ele dizia que São Jorge era seu Santo Protetor. Tinha algumas manias, como tirar o miolo do pão francês e não comer o miolo do abacaxi (eu comia todos, porque adorava). Sempre ouvimos ele comentar sobre um filme que tinha assistido com Mamãe e o enredo era mais ou menos assim: Um homem foi fazer um serviço no sub solo e quando voltou a superfície notou que não existia mais ninguém na terra. Pegava carros, podia ter qualquer casa, qualquer comida, tudo era dele e a principio se sentiu feliz. Começou a rodar por outras cidades para achar alguém porque começou a sentir falta de falar e conversar. Então, o que no inicio parecia ser ótimo, se tornou um pesadelo, porque  a cada dia ele se via totalmente sozinho. Queria muito saber o nome deste filme.

         Uma das vezes que eles saíram à noite para ir ao cinema assistir “Suplicio de uma Saudade”, aconteceu o que achamos ser uma tragédia. Havia vazado óleo de navio no mar e alguém que estava numa das barcaças que faziam a travessia de Vitoria para Paul, jogou um cigarro na água e o fogo se alastrou. Da janela lá de casa, víamos o morro do Pelamacaco e muito fogo e nuvens pretas nas proximidades. Achamos que ia acabar o mundo. Numa outra ocasião, uns amigos subiram na caixa d’água para fazer serenata para nós (porque sabia que nossos pais não estavam em casa). Ficamos escutando atrás da porta de correr da sala, e sem esperar a porta caiu. Os rapazes foram nos ajudar a colocá-la no lugar rapidamente antes que Papai chegasse em casa, senão, era bronca na certa.

         Tínhamos em casa um lindo canário belga. Suas penas eram finas e suaves em tons de amarelo claro até chegar ao branco. Ele cantava muito. Às vezes Mamãe colocava a gaiola na janela do quarto para ele ver a paisagem.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Lembranças soltas

Num determinado ano, Tio Américo perdeu o pai, Sr. Alexandre Buaiz, e nossos primos, foram lá para casa. Tentamos distraí-los como pudemos, passeando lá no alto da caixa d’água.

         Papai tinha uma espingarda de chumbinho que ele usava quando ia caçar codorna. Nos fins de semana, íamos para o quintal onde tinha a mesa grande de madeira, ele colocava os discos velhos de vinil de 78 rotações no muro e brincava de ver quem acertava mais próximo o buraco do meio. Era muito divertido.

         Como Papai trabalhava no sábado pela manhã, aproveitávamos para ir na propriedade da Caixa D’Água. Tinha uma senhora que tinha muitos filhos e morava lá. Ela lavava e passava toda a nossa roupa. Um dia me convidou para eu batizar um filho dela lá no Convento da Penha. Depois que mudamos desta casa, nunca mais soube deles. Tinha o Seu Mendonça, que morava também dentro da propriedade. Ele plantava cana e um feijão grande. Também tinha um grande pé de Abricó e muita goiaba. Ele era bravo e não deixava ninguém mexer nas plantações, mas algumas vezes nós “roubávamos” uma canas e umas goiabas, e íamos comer lá em cima da caixa d’água. Se ele pegava a gente colhendo as frutas, ficava bravo e dizia que ia contar para Papai.

         No quintal de Vovó  tinha um enorme pé de manga espada. Olhávamos para cima e víamos as mangas lindas, maduras, algumas já sendo devoradas pelos passarinhos. Mas tínhamos medo de subir em árvore, então chamávamos Tio Arildo para colher as frutas para nós. Lá de baixo, ficávamos dando as coordenadas para ele, qual delas queríamos.

         Nossas férias eram sempre divertidas, pois sempre viajávamos. Nas ferias de verão íamos para um hotel em Nova Almeida e nas férias de julho, íamos para Vargem Alta onde ficávamos na casa de Tia Oscarina. Papai pedia para o seu Benedito nos levar numa rural verde e branca. Nos finais de semana ele ia também. A propriedade da Tia Oscarina era uma delicia. Muitas frutas no pomar. Ela colhia figos, peras, goiabas, amoras e muitas outras e fazia compotas maravilhosas em suas panelas super polidas de cobre. Ficava horas mexendo aqueles doces no fogão a lenha. Nessa cidade, tinha a criação do Bicho da Seda. Chegamos a ir lá visitar as instalações e conhecer os casulos. Veja pela foto como são os casulo do Bicho da Seda.


domingo, 10 de abril de 2011

Começando a entender a realidade

Como tudo que é bom dura pouco, esta fase da minha vida estava chegando ao fim. Porém, naquela época nossa compreensão para os fatos era outra.

         Uma manhã, depois que estávamos liberadas para brincar um pouquinho, estranhamos que nossas amigas da casa que ficava depois do muro da casa de Vovó Telina não tivessem aparecido na rua. Esperamos e nem sinal delas. Fomos até a porta da casa e batemos, porém ninguém atendeu. Mais tarde, ficamos sabendo que D. Lezir tinha ido embora e seu Getulio com vergonha dos vizinhos, pegou os filhos e deixou a casa. Nunca mais ficamos sabendo delas. Este foi um dos primeiros sintomas que a vida estava mudando e para nós, da pior maneira possível.

         Papai quando podia, levava Mamãe para uma viagem curta. Eles gostavam de ir para a estação de Águas de São Lourenço em Minas Gerais. Nós ficamos na Vovó Telina por ser mais perto de nossa casa. Tio Arildo era solteiro, e o último andar da casa da Vovó era dele. Na biblioteca, na enorme estante que cobria toda a parede, muitos e muitos livros, inclusive algumas coleções (me lembro de Machado de Assis e Tesouro da Juventude). Tio Arildo possuía uma coleção enorme de selos e nós brincávamos com eles quando ele não estava por perto. Um sofá e acima dele dois retratos: um de Tia Heny e outro de Tio Arildo. A janela dava para o quintal onde tinha o pé de Acássia. Existia um quartinho em frente ao banheiro, onde tinha um armário e em cima dele Vovó guardava em caixas os diversos chapéus que ela tinha. Adorávamos experimentar cada um. À noite, antes de irmos dormir, Vovó preparava uma gemada de vinho, colocava num copo e deixava na subida da escada que levava ao terceiro andar para Tio Arildo tomar quando chegasse da rua.

         De tempos em tempos, Vovó recebia em sua casa a imagem de uma Santinha. Ela ficava num lugar especial: a sala de visitas, muito bem decorada por sinal. O sofá era de veludo rosa antigo, as cortinas da porta enorme que dava para a varanda também eram rosa. Numa parede, um espelho maravilhoso de cristal com tons de rosa num formato octogonal. Era feito tipo um altar para a Santa, colocada flores e a gente rezava em frente a ela. Neste mesmo canto, em todos os natais, era ali que ficava o Presépio. As peças eram muito bonitas e grandes.

         A máquina de costura de Vovó parecia até de brinquedo. Era pequena, verde clara, me parece que era alemã. Não tinha pedal e ela funcionava com uma pequena alavanca que Vovó acionava com a perna esquerda. Denise lembrou que algumas vezes ela cantava baixinho uma canção que dizia: “o destino puxou a fieira desta linda história de amor, hoje eu vivi a chorar, a chorar”. Cantava lembrando do irmão dela, Tio José, que morreu assassinado.

Vovô Gildo gostava de tomar um bom café da manhã. Normalmente ele comia inhame, batata doce com melado e café com limão. Gostava de ouvir suas musicas e tinha 2 cantores que tinha o disco de 78 rotações: Luiz Gonzaga e Enrico Caruso (Tenor Italiano).

Vovô tinha m cachorro chamado Rex e acho que era da raça Cole. Ele morreu atropelado.

Também tivemos uma cachorrinha. Ela era bem gordinha, branca e preta e parecia uma bolinha. Seu nome era Susi.

Com 10 anos fiz minha primeira comunhão, na Igreja São Gonçalo.