Algumas vezes, nas férias de verão, Tia Arlete e Tio Américo saiam e Papai nos levava à noite na casa deles para brincar com os primos. Eles gostavam muito de papai.
A casa tinha uma enorme sala com a parte da frente totalmente de vidro onde foram colocadas duas poltronas reclináveis (tipo chase long) uma azul clara e outra rosa, em cima de um grande tapete. Estas poltronas ficavam exatamente de frente para o mar. Em épocas de ressaca, as ondas batiam fortes e estouravam na areia. O barulho as vezes dava até medo. Nesta mesma sala, ambientes eram compostos por outros sofás, a sala de jantar, um barzinho que ficava ao lado de uns 4 degraus de escada que levava aos quartos e banheiro social.
Era no tapete da sala que gostávamos de sentar e papai se acomodava num sofá para contar historias. Todos ficavam no mais absoluto silêncio prestando atenção. Algumas histórias ele inventava (como aquela da menina paralitica que ficava triste em frente à janela, mas tinha uma especial, que todas as vezes que ele contava, não tinha quem não chorasse. No silêncio da sala, a única coisa que se ouvia eram os nossos soluços. E era assim sempre, não importa quantas vezes ele tenha contado, nossa reação era sempre a mesma. Para quem não conhece ou para quem deseja relembrar a história.
A menina dos fósforos
“Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre menina seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.
Por isso, a menina seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. Pobre rapariguinha! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, é que ela pensava.
Sentou-se no chão e encolheu-se no canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de um fogão de sala cheio de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e o fogão desapareceu. E viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão.
Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a rapariguinha viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de loiças finas, e mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados nas costas, até junto da rapariguinha. O fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria.
E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as montras das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direcção à terra, deixando atrás de si um comprido rasto de luz.
«Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe muita vez: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.»
Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade!
— Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como o fogão de sala, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda.
Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços e, soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus.
Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma rapariguinha, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… mor ta de frio, na última noite do ano. O dia de Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que entrou, na companhia da avó, no Ano Novo”.
(Hans Christian Andersen)
Depois de tantos anos, ainda consigo escutar a voz de Papai, pausada e calma para dar mais ênfase a história.
Tinha uma outra história que não era contada mas ele nos deu um livrinho cheio de figuras onde a mesma era ilustrada. Era mais ou menos assim: Um lugar bonito no campo, casas espalhadas, fumaça saindo das chaminés. Tudo parecia perfeito e todos pareciam felizes. Aos poucos, a paisagem foi mudando. Começaram as vir as indústrias com suas fumaças escuras, os arranhas céus foram ocupando todos os espaços. Porém nesta paisagem, existia uma casinha que não se deixou abater. O dono não quis se desfazer dela, porém a cada dia ela se perdia no meio daquele mundo novo de prédios e fábricas. Era o progresso que estava chegando e destruindo a vida daqueles que só queriam ser felizes.
Nossa irmã! Quase chorei (mais uma vez) lendo essa estória. Realmente, dá para ouvir a voz de papai contando a estória e "curtindo" a choradeira da criançada... aí que ele fazia mais suspense e colocava mais emoção na voz. Que saudades!!! Beijos.
ResponderExcluirIrmã querida,
ResponderExcluirTe quase chorou, eu estou chorando, ao lembra, de papai e das historias.Quando Manoela, Paula e Joana, cresceram, tinham 8, 4 e 3 anos ou um pouco mais, contava estas historias para elas.E elas choravam.Como papai, inventava algumas...E a meses atras Manoela, ficou sem luz, e ligou do celular para que eu contasse estas historias para ela.Como tive sau7dades......Beijos , Denise