terça-feira, 14 de junho de 2011

A História de uma Rua


Naquela época, morar na Sete de Setembro era um luxo. Para se ter uma idéia, numa das minhas pesquisas pela Internet, me deparei com um texto, escrito por Edson Tadeu Campostrini Cruz e Arion Carlos Ribeiro de Oliveira, que retrata bem o que era o centro de Vitoria naquela época. Abaixo, o relato na íntegra. Quem teve a oportunidade de conhecer a Rua Sete naquela ocasião, vai relembrar exatamente como ela era.  Em cima do texto copiado, fiz algumas observações particulares, apenas para ilustrar melhor aquela época.

“Escrever a história da Rua Sete de Setembro é escrever parte da história da cidade de Vitória, uma história que passa pelos seus costumes, suas modas, manifestações artísticas, amores proibidos, paixões inconfessáveis, escândalos, crimes passionais, lutas políticas, boemia, irreverência, e samba, muito samba... Sendo antes de tudo, mais um estado de espírito que apenas uma rua, cada um trás dentro de si a sua Rua Sete, com direito a contar a sua própria estória, e acreditar nela. Uma história de grandes encontros e, também, muitos desencontros...
A antiga Rua da Várzea tem seu nome atual tirado de um grito de liberdade, pois foi rebatizada com a denominação de Rua Sete de Setembro em 1922, quando das comemorações do centenário da Independência do Brasil.
Talvez graças ao peso de seu nome, passou a ser o local de todas as possibilidades, infinitas manifestações, lugar onde tudo, ou quase tudo é permitido, onde diferenças são ignoradas e antagonismos inexistem, local onde a independência e a liberdade, lembrados pelo seu nome, e a irreverência pudessem imperar.
Partindo da Prainha no Largo da Conceição, antiga Praça da Independência, hoje Praça Costa Pereira, e se alongando até a Fonte Grande, formou por muito tempo com as ruas que a circundam, a “Graciano Neves” e a “Treze de Maio”, o grande palco das alegrias e mazelas da sociedade capixaba.
Vou à rua sete já significou a preferência de uma cidade. No início a Praça Costa Pereira tinha dois terços da sua área banhados pelo mar, e para evitar as freqüentes tentativas de invasão de corsários e piratas foi construído no local, ainda no século XVIII, o Forte São Diogo.
Depois de aterrada, iniciou-se a ocupação de seu entorno. Data desta época a construção do Teatro Melpômene, destruído anos depois por um incêndio. Mais tarde surgiram, o Café Avenida, a Sorveteria Pingüim, e o Hotel Império, ainda existente.
A praça, local de grande movimentação social, abrigava o famoso “footing”, no qual homens e mulheres flertavam ao circularem em sentidos opostos. Foi ponto de encontro de famílias tradicionais e abastadas de Vitória que moravam no centro.
Dentre suas lojas mais famosas destacou-se a Madame Prado, primeira grande Maison da cidade, onde as granfinas compravam seus vestidos, chapéus, luvas, tecidos finos, acessórios e presentes, incluindo louças e porcelanas importadas. A porta dessa loja foi símbolo de requinte, mas também palco de uma tragédia que marcou época com uma história de amor, vingança e morte.
A Praça Costa Pereira foi perdendo gradativamente seu glamour a partir da década de 50. (Quando conheci a Praça Costa Pereira, já não existiam os bondes. Minha avó morava no sexto andar do Edificio Antenor Guimarães. Me lembro muito bem do Edificio do Palacio do Café, onde no terraço funcionava um excelente restaurante, assim como também me lembro do Clube Alvares Cabral, onde pulamos tantos carnavais e o que não pudemos ir, pulamos na varanda do apartamento até o dia clarear).
A atual Rua Graciano Neves foi inicialmente conhecida como Rua do Reguinho, pois era cortada em toda a sua extensão por uma vala formada pelas águas da Fonte Grande. (Era nesta rua que moravam num prédio de esquina o Sr. Leoncio e D. Acedalia Rezende, pais do Tio Otto. Mais tarde Tia Dalva e Tio Otto também mudaram para esta rua).
Após a canalização das águas tornou-se uma rua essencialmente residencial. Lá moravam famílias importantes da cidade. No local onde hoje se encontra o edifício Antares ficava a “Chefatura de Polícia”, utilizada como prisão política durante o movimento integralista e para onde eram levados políticos e simpatizantes de esquerda durante o governo militar.
A Rua do Piolho, atual Rua Treze de Maio, onde se viam figuras exóticas como o senhor Leovigildo, dono de modestíssima quitanda e que gostava de se trajar com figurinos do século passado, além do Sr. Manoel Rodrigues das Neves, conhecido por “Perna-fina”, tocador de viola e ensaiador de peças teatrais. (Nesta Rua, 13 de Maio, moramos antes de mudarmos para a Sete de Setembro).
Com a urbanização da região chegou o bonde, que subia a Rua Sete em direção à convertidora.
Dada a sua importância, a Prefeitura Municipal de Vitória tinha na Rua Sete a sua sede. Na rua também ficava a antiga empresa de energia elétrica CCBFE.
Debruçadas na janela as “de Jesus”, a tudo assistiam. Irmãs que ainda hoje moram na Graciano Neves, contam que havia nas proximidades uma “cancha” de basquete onde as pessoas se divertiam com esse esporte. As “de Jesus” eram famosas por serem muito prendadas. Professoras de piano eram também conhecidas por fazerem um delicioso bolo formigueiro.
Por muitos anos vários tipos populares freqüentaram a região, entre eles: Otinho, o eterno poeta da Rua; a Rainha das Flores, em seu vestido branco enfeitado com flores levando sempre uma sombrinha também florida e muito “pó de arroz” no rosto; Meio Fio, famoso por caminhar apenas na beira das calçadas, sempre trajando paletó e gravata, levando uma piteira pendendo da boca e na mão uma bengala; e Feijoada, um mulato de lábios muito grossos. São dessa época a Padaria Nacional, o Café Estrela e o armazém de secos e molhados dos Gianordolis.
A partir da década de 60 a Rua Sete passou a ser artéria de importância comercial. Havia a Casa Simões, a Loja São Sebastião, a Casa Esperança, bazares que vendiam “de um tudo”, artigos de armarinho, cama e mesa, sombrinhas e tudo o mais que se precisasse.
Mudando substancialmente de cara, e com a sofisticação de suas lojas, passa a ser então o ponto de encontro das mulheres elegantes da cidade que compravam suas roupas em butiques da moda. Doll Sport, Click, Abigail, Heládia, Milady, Paris Modas, Gina eram as mais famosas. (Quantas roupas bonitas compramos nas boutiques desta rua. Denise era uma freguesa constante da Doll Sport).
Chique era ter sua casa decorada com cristais, prataria, ou qualquer outra peça vendida no Porão de Palha, ou na D’Arc Presentes, que ficavam na Galeria Jeanne d’Arc, assim mesmo, em francês, como que para conferir maior glamour. Na mesma galeria os homens elegantes encomendavam seus ternos na Alfaiataria Fraga, ponto de encontro dos poderosos, de ricos empresários a políticos influentes. (Nesta Galeria Tia Heny teve uma loja chiquerrima de decoração. Naquela ocasião, comprei muitos presentes para alguns casamentos que compareci. Na volta do trabalho, era bm passar por lá, ver as novidades e adquirir algo).
Na Galeria Valverde, onde funcionava na época a loja de discos Jairo Maia, do famoso radialista, encontramos ainda hoje A Fada, especializada em lingeries, meias finas, perfumes importados e cosméticos. (Ah! quem não lembra da Loja de discos  Jairo Maia? Ficava bem no meio da galeria. No final dela, com frente para a 13 de Maio tiha aquela boutique  onde comprei meu vestido do casamento de Telina. Lembro que ganhei uma camisa linda de voal azul clara de Papai comprada nesta loja).
As dondocas se embelezavam no Salão Shangri-La, o fino do fino, e vestiam seus filhos na Infantil Modas, logo ali, na Treze de Maio, com direito a eternizar um momento qualquer no Foto Léa. (Lembro de uma loja muito bonita que só vendia enxoval e se chamava "A Madeireira". Comprei todo meu enxoval nesta loja. Ela ficava quase em frente ao Britz Bar. Eram peças de excelente qualidade, tanto que ainda hoje tenho peças adquiridas nesta loja).
Comia-se no Garrucha 44, restaurante durante o dia que, dizem alguns, se transformava em “casa de encontros” com o cair da noite...
Encomendavam-se sapatos sob medida na A Jato, e a barba só podia ser feita na Barbearia do Gaúcho, apenas com hora marcada, é claro. (Lembram desta sapataria? Cheguei a encomendar sapatos ali).
A rua passa a ser também freqüentada pelos jovens descolados da época, onde, para um público mais seleto, havia a Lanchonete Sete, decorada com famoso painel da artista capixaba Marian Rabelo.
Morar na Rua Sete nesta época era considerado sinal de status. Um apartamento no Edifício Gaivota, ou no Edifício Antares, com sua Galeria Shopping 7, inaugurada com grande alarde por ter a primeira escada rolante da cidade, passa a ser o sonho de consumo de muitos. (Esta galeria ficava entre a Sete de Setembro e a Graciano Neves)
         Já no final dessa época foi construído seu último grande empreendimento, uma nova galeria, obviamente, a Galeria Boulevard, que resistiu ainda por alguns anos, até que o tempo levasse embora a marca de uma época.
         Impossível falar da região da Rua Sete sem lembrarmos o saudoso Britz Bar, onde diferenças sociais ou políticas nunca foi impedimento para a alegria e a descontração do ambiente. (Poxa, quem não lembra do Britz? Era tão bons encontrar os amigos ali).
Com sua cerveja sempre quente, durante muitos anos o bar reuniu diversos setores da sociedade capixaba: Intelectuais, artistas, boêmios, ricos e pobres, pessoas elegantes e mendigos, senhoras da alta sociedade e prostitutas, homens, mulheres, gays, todos conviviam e compartilhavam do mesmo espaço. (No Britz, tinha um prato que eles serviam que era incrivel. Se não me falha a memória, seu nome era "Bife a Cavalo" e era composto de: Bife alto, rodelas grossas de palmito, farofa na manteiga, batata frita e arroz. Simplesmente maravilhoso e inesquecivel! Muitas vezes levavamos este prato para comer em casa).
Ponto de encontro de jornalistas que trabalhavam em “O Diário” e no “Jornal da Cidade”, o Britz seria a síntese do espírito que reinava na região, a maior tradução do clima de irreverência e democracia pelo qual a rua ficou conhecida.
Eram muito concorridos os carnavais do Britz. Sendo famoso o Bloco Unidos de Carapeba, formado por freqüentadores do bar que se vestiam de mulher. (Este bloco era incrivel, muitos anos acompanhamos de perto pois os amigos e namorados também se vestiam de mulher e participavam do evento).
O Britz foi fechado...
“...É provável que a época deste tipo de estabelecimento tenha chegado ao fim... Para cada período houve um pouso, lar doce bar para os abandonados da sorte... ninho sem estranhos e sem estradas, onde se amontoam as conversas diárias, um café e um cigarro.” (Fernando Tatagiba)


Nesta esquina funcionava o Britz Bar - Que saudades!!!


... mas resistindo aos caprichos do tempo ainda encontramos o Bimbo e o Bar do Gegê, onde se pode beber uma gelada com torresmo e bolinho de carne, e de quebra, se você tiver sorte de chegar na hora certa, ouvir uma roda de samba, puxada por ninguém menos que Edson Papo-furado.
O comércio de luxo deslocou-se para a região norte da cidade.
A Rua Sete foi perdendo seu glamour e entrando num período de decadência, suas referências de requinte se foram.
De local sofisticado as ruas da região passaram a ser as ruas dos armarinhos, das lojas de produtos orientais, lojas de material de carnaval com fantasias a colorir suas portas e de onde, dependuradas em suas vitrines, máscaras teimam a sorrir para quem passa.
Insistindo em sua tradição de local de todas as tendências, lojas de produtos naturais ficam lado a lado com as de suplementos alimentares. Onde mais isso poderia acontecer?
Restaurantes de comida a quilo espalham-se por toda a região. Lojas de folheados falseiam o brilho do passado. Uma Pastelaria Chinesa, um Caldo de Cana, óticas, relojoarias, farmácias, pequenos comércios de trabalhos manuais e bordados disputam fregueses.
No outrora requintado calçadão, ambulantes oferecem filmes piratas, frutas e legumes. Em meio a tudo isso, apesar do tempo passado, ainda se faz sentir o cheiro de pão fresco da Padaria Expressa.”

Esta é a paisagem da Rua Sete de Setembro de hoje



  

7 comentários:

  1. Irmã,.


    Adorei, este texto! Ai, saudade, pegou mesmo! Voltei ao passado, e tive vontade de ficar por lá!
    Beijos,

    Denise

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  2. Espetacular o texto, irmã! Adorei! Muitas lembranças. A cada parágrafo vinha uma lembrança daqueles bons tempos. Beijos, Tê

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  3. Oi, adorei o seu texto, sou estudante de arquitetura e estou fazendo minha monografia sobre a Rua Sete, me ajudou muito. Você teria algumas fotos? da rua, ou de alguns dos lugares mencionados no texto?
    Desde ja agradeço.

    Bruno
    arq.brunocarvalho@gmail.com

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  4. Oi Rita! Bela crônica.
    Eu me lembro bem de cada momento. Os jovens, rapazes e moças, lembro circulavam em sentido oposto, é verdade, mas só até escolher seu par, depois circulavam no mesmo sentido e de mãos dadas, sempre acompanhado (o casal) por uma irmã mais nova, ou uma sobrinha (eu segurei muita vela para um casal de tios meus, tio Contti e tia Edna.
    O Hotel império, é verdade existe ainda, mas vive acabrunhado meio que sem graça olhando tanta mudança sem critério que ocorre ao seu lado. Procura e não acha o glamour de outrora.
    O prédio da PMV, era imponente!! isso sem falar no Britz bar, quase nossa casa.
    O bonde eu ainda peguei, rodeava a praça Costa Pereira. A Central Convertidora, ficava no final da Rua Sete, na subidinha da ladeira perto do jornal "O diário" e meu avô ali trabalhava (na convertidora) como motorneiro. (e foi um dos fundadores da igreja Presbiteriana que ainda existe ali) Para desespero dele eu adorava pegar ponga no estribo do bonde.
    A Madame Prado, conheci! Era meu passatempo predileto admirar a vitrina (só olhava, não tinha grana pra gastar ali).
    Mas são dos personagens populares que sinto mais falta hoje (não existem mais. Não que eu saiba!). Você falou na Rainha das Flores (que figura), no Otinho! Levei muito susto com ele. As meninas passavam e ele vinha cantando "os peixinhos do mar"... quando você menos esperava ele saia cantando e batendo o pé no chão um tátatatatata! Lembro também do "Meio Fio", ficou assim conhecido porque andava com um pé em cima do meio fio e o outro embaixo. Murmurava alguma frase que não lembro mais.
    Em fim, assim como você, passo ali sempre com o olhar a procurar algum vestígio do passado, mas não acho. A não ser, o Samba, que ainda é da nossa Piedade, e se espalha pela rua aos sábados, pouca coisa resta ainda.
    Abraços e desculpa fazer um comentário tão longo, mas o assunto empolga!

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  5. Por falar em personagem popular da Rua Sete, não podemos esquecer do Vivi. Era um sujeito com barriga proeminente. Dizem que era uma doença chamada de "barriga d'água". Ele se popularizou por andar sempre com um caderno grande onde solicitava autógrafos de mulheres consideradas por ele "bonitas". Homens e mulheres feias ele não dava bola.

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  6. Quantas recordações. Uma crônica que nos remete ao passado com muito brilhantismo e tranquilidade. Mágico!
    Esqueceram da Sapataria do Luiz Cipresty, a Escola Monte Serrat.
    Denise Moraes

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  7. Li o comentário sobre a lembrança do Vivi, o personagem da Rua Sete. Quantas vezes tive que assinar o livro. Demais.
    Denise

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