segunda-feira, 4 de julho de 2011

Mais tristezas


Foi um período muito difícil e parecia longe de acabar. A sensação é como estar em queda livre sem saber onde você vai cair. As perdas de um modo geral são sempre tristes. Imagine então o que é perder seu Pai.

Exatamente um ano depois de termos perdido Paulo Cesar, sofremos mais um grande baque. No dia 15 de julho de 1979, foi a vez de Papai.

Era madrugada em Curitiba quando o telefone tocou. Acordei sobressaltada, ouvindo vozes ao telefone. Olhei o relógio e ele marcava 4:20 hs da manhã (por coincidência, a mesma hora que eu nasci). Apesar da madrugada gelada, pulei rápido da cama quando ouvi o Alceu falando baixo ao telefone. Tinha um pressentindo que algo muito ruim tinha acontecido, mas não me passou pela cabeça que seria meu Pai. Quando recebi a noticia, foi como se tivesse levado um soco na boca do estomago. Eu e Tia Marília nos abraçamos a chorar, querendo que aquilo não fosse verdade. Quem ligou foi o Sergio e disse apenas que Papai  dormiu e não acordou. Foi levado para o hospital, Carlos Eduardo que é cardiologista e meu primo atendeu e não conseguiram reanimá-lo. Alguém passou um café, sentamos na copa e ficamos pensando o que íamos fazer assim que o dia clareasse.

A segunda-feira amanheceu nublada e triste, exatamente como estávamos nos sentindo. Antes das 7 horas eu já estava na empresa. Organizei algumas coisas que não podia deixar de resolver, avisei algumas pessoas, passei em casa e fomos para o Aeroporto. Primeira dificuldade encontrada foram os vôos lotados para Vitória. Naquela ocasião havia poucas opções de vôos para Vitoria. Tentamos de tudo, explicamos a situação na esperança de conseguirmos alguma coisa, porém só conseguimos lugar no vôo até o Rio de Janeiro, infelizmente os vôos do Rio para Vitória estavam realmente lotados.

Como Papai faleceu às 4:10 hs da manhã, o enterro seria no final da tarde, então queríamos chegar até o horário previsto. Alceu viu que não tinha solução e resolveu fretar um avião da Crasa Táxi Aéreo. Conseguimos embarcar antes do almoço e levamos 3 horas e meia para chegar, com apenas uma parada para reabastecimento no aeroporto do Rio de Janeiro. Quando o avião sobrevoou o hospital Santa Rita, onde ele estava sendo velado, alguém já de sobreaviso foi nos buscar no aeroporto. Sem dúvida, foi a viagem mais longa que já fiz. Avião pequeno, não dava para se mexer muito e a tensão fazia com que as costas doessem demais. Num determinado ponto, o desespero de ficar na mesma posição era tanto, que acabei deitando no chão para tentar conter a dor nas costas. Chegamos já passava das 15 horas.

Saímos de Curitiba com muito frio, por isto estávamos vestindo casacos pesados, botas e calças de lã. Chegamos em Vitória o céu estava azul e muito quente. Não reparei quem estava presente e não lembro de ter visto ninguém. Fiquei ali ao lado dele enquanto um filme passava pela minha cabeça. Parecia que estava vivendo um pesadelo, e queria muito acordar. Outras vezes, minha mente formulava perguntas que eu não teria respostas. “Pai, quando poderia imaginar que em Curitiba seria a última vez que o veria?” – “Seria por isto aquela dor tão grande no peito ao me despedir de você?” Alguém chegou ao meu lado e me ofereceu um suco de laranja que agradeci e não aceitei. Um pouco antes da despedida final, lembro que retirei uma pétala das rosas amarelas que o cobriam, escrevi meu nome e coloquei junto ao seu peito. Seu semblante era sereno, exatamente como se estivesse dormindo.

Aguardei até a missa de sétimo dia e voltei para Curitiba.

Papai, é assim que sempre vou ter você comigo.





Esta mensagem foi escrita com muito carinho por um grande amigo dele.      


         Fiquei um longo tempo sem voltar a Vitória, mesmo tendo consciência que a maior parte da minha família estava lá. No fundo, sabia que não mais teriam flores no quarto, nem moqueca de pitus e nem mesmo o café da manhã com todos reunidos. Ele sabia que eu adorava tudo isto.

         Porém, no inicio de 1980, Vovó Telina ficou doente. Numa manhã de uma sexta-feira de Maio, resolvi voltar a Vitória para vê-la. Ela estava no hospital (não lembro o nome mas era bem próximo da Catedral). Ela sempre teve uma voz baixa e calma e naquele momento parecia ainda mais fraca. Fiquei 3 dias em Vitória e uma das noites fiz questão de ficar com ela. Ela segurava minha mão, dizia o quanto estava feliz de me ver bem e que sempre rezava para eu ser feliz. Rezava para eu encontrar uma pessoa que me merecesse. Pediu que eu sempre cuidasse de Mamãe pois ela era muito frágil. Falamos de tantas coisas, que nem vi o final de semana acabar. No domingo me despedi dela. No dia 08 de Julho ela faleceu. As inúmeras cartinhas que ela me escreveu depois que vim para Curitiba estão todas guardadas e quando preciso ouvir palavras doces, volto a ler estas cartas.

Um comentário:

  1. Puxa, irmã, hoje você "matou a pau"! Realmente, não segurei as lágrimas. Foram tempos tão difíceis!!! Quantas saudades! Te amo! Beijos! Tê

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