Quando meus pais viajavam por alguns dias para passear, sempre ficávamos na casa de Vovó Telina por ser mais perto de nossa casa.
Até a hora da despedida, tudo parecia estar bem, mas só eu sabia como estava dentro do meu coração. Adorava ficar na casa dos meus avós, apesar de Vovô ser muito sério e algumas vezes bravo. Vovó, pelo contrário, não sabia o que fazer para agradar e tornar menos triste os dias sem nossos pais.
Todas as noites, de onde estivessem, ligavam para saber de nós e queriam falar um pouquinho com cada uma. Nesta hora, eu tentava arranjar qualquer coisa para fazer para não falar com papai no telefone, porque sabia que ia chorar. Quando o telefone tocava, já imaginando que era ele, ia para o banheiro e me trancava, ou dizia que ia pegar algo no quarto e não voltava até eles terem desligado. Vovó percebia o que acontecia comigo e não insistia, explicando que estava tudo bem.
A família de ambos os lados me achavam mais parecida com papai, desde o tom de pele, os olhos e o cabelo fininho, do que as minhas irmãs.
Na casa de Vovó, tinha um amplo hall na entrada com três saídas: uma entrava na sala de visitas, a outra dava para a sala de jantar e a outra era a subida das escadas que levavam aos andares superiores.
Bem na parede defronte a escadaria, existia um móvel onde em cima ficava um rádio. À noite, depois do jantar, Vovô ficava em frente aquele radio para escutar a “Hora do Brasil” e o “Repórter Esso”. Neste horário, ninguém podia conversar, nem fazer barulho, porque atrapalhava ele ouvir as noticias.
Enquanto isto, Vovó fazia torradinhas com manteiga e nós ficávamos na copa, algumas vezes com Tio Arildo, apostando que conseguia comer torrada sem fazer barulho.
Algumas vezes, outros primos também iam para lá e a gente brincava mais. Gostávamos de fazer guerra de travesseiros e muitas vezes uns ficavam no 3º andar e outro na varanda do 2º. Quando acontecia do travesseiro cair na cabeça de Vovô ele ficava muito bravo.
O quarto de casal era enorme. Tinha uma cama grande de Jacarandá, duas mesinhas de cabeceira e uma penteadeira com espelho. A gente gostava de dormir no chão, umas do lado de Vovó e outras no lado de Vovô. A cama era alta e passávamos por baixo dela para implicar com os outros que estavam do outro lado, quando reclamava, Vovô mandava todo mundo ficar quieto.
Ao lado do quarto deles, tinha um outro que outrora foi o quarto de Tia Heny, mas até onde lembro, neste quarto ficava Vovó Maria, aquela que fez meu parto. Uma lembrança que ficou, foi num determinado dia em que estávamos lá, havia movimento de muita gente circulando e chorando pela casa Ao passar ao lado daquela porta, vimos ela deitada e provavelmente já tinha falecido.
Durante muito tempo, fiquei impressionada com este fato. À noite, no silêncio total da casa, onde nem mesmo havia carros passando nas ruas, escutava claramente os uivos dos cachorros das redondezas e tinha muito medo. Queria que a noite acabasse logo, para que o medo fosse embora junto com ela.
Na Páscoa, Vovó comprava chocolate para todos da família. Comprava também algumas caixas extras de bombons para agradar uma ou outra amiga que chegasse nesta época para uma visita. Adorávamos os bombons de licor. Quando tinha uma caixa aberta, a gente desembrulhava cada um, furava, tomava o licor e embalava de novo e voltava com ele para a caixa. Coisas de criança.
Um dos pratos típicos da Semana Santa, era a “Torta Capixaba”, feita a base de palmito e diversos frutos do mar. Depois de tudo cozido e misturado, eram colocadas em panelas de barro, batia-se as claras em neve, depois misturava as gemas jogava em cima e decorava com rodelas de cebola e no meio azeitonas. As duas avós sabiam fazer com perfeição e embora os ingredientes fossem basicamente os mesmos, uma ficava diferente da outra. Era servido com arroz branco e acompanhado de vinho tinto. Para as crianças, suco de uva. Para agradar a todos, Papai combinava a quinta-feira na casa de uma Avó e na Sexta-Feira na casa da outra.
Vovó tinha duas ajudantes que se chamavam Osvaldina e Geny. Elas eram muito boazinhas. Quando brincávamos no quintal ou na varanda, Vovó pedia que ela levasse um lanchinho para a gente no meio da tarde.
Os almoços de domingo, onde toda a família se reunia, sempre foi um show a parte. As crianças brincavam do lado de fora, depois eram chamados para almoçar na copa e podiam voltar a brincar. Os adultos se reuniam na varanda onde haviam cadeiras de ferro batido pintadas de branco com almofada estofada e uma mesa de centro. Eram servidos diversos petiscos, grande parte deles feitos por Vovó, além de Whisky e refrigerante. A mesa era farta, com vários pratos.
Nossa irmã... fiquei com água na boca das Tortas Capixabas (tanto de vovó Telina quanto de vovó Quinha. Eram, simplesmente, um show à parte! Beijos...
ResponderExcluirAdorei, suas lembranças! No fundo, você tinha mêdo, como todas nos..Que tempo bom.Pena, que não volta! Mas temos as nossas lembranças, que vai com a gente ate o fi.
ResponderExcluirBeijos,
Denise